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Baladas, álcool e adolescência 

Esse trio está cada vez mais presente nas noites e famílias paulistanas. Uma, duas, três, quatro, cinco doses. Os adolescentes, hoje, não pensam duas vezes antes de pedir para descer mais uma. Eles saem com os amigos a fim de se divertir, ingerem bebidas alcoólicas e no dia seguinte mal lembram dos acontecimentos da noite passada. Mas um fato é: porque a juventude tem começado tão cedo nessa vida do consumo excessivo de álcool?

 A bebida, a princípio, pode agir como estimulante, deixando a pessoa desinibida e eufórica, mas à medida que as doses aumentam, surgem os efeitos depressores e os resultados nem sempre são agradáveis. A diminuição da coordenação motora, dos reflexos e sono são alguns dos exemplos mais sutis que podemos ver. De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, mesmo com a proibição de qualquer tipo de bebida alcoólica para menores de 18 anos, entre os jovens de 12 a 17 anos, a taxa de dependentes é de 7%. Seguindo essa mesma média, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar divulgada em 2009, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e financiada pelo Ministério da Saúde, 27% dos estudantes haviam bebido no último mês. 
 
Tudo bem, nós estamos em uma sociedade cada vez mais moderna, defendendo direitos para todas as idades, mas, quais são os reflexos desse consumo de bebida por um público cada vez mais novo?
 O corpo dos adolescentes, ainda em formação, é o principal prejudicado nesse consumo excessivo de álcool. O aumento à vulnerabilidade para infecções sexualmente transmissíveis, a violência, os acidentes, as doenças como a cirrose e o câncer no fígado são exemplos dos resultados negativos apresentados no decorrer dos anos. A jovem C.A.O, hoje com 16 anos, comprova esse fato. “Comecei a beber com 14 anos. Depois de um tempo comecei a sentir fortes pontadas no estômago e hoje faço um tratamento rigoroso para evitar essas dores”. Mesmo em tratamento, ela ainda comenta “Sei que sou jovem e preciso cuidar do meu corpo, mas não dá para resistir e sempre que possível acabo tomando uma cerveja com os meus amigos, afinal, ninguém é de ferro”.

 Uma pesquisa realizada pela Universidade Estrangeira Duke (EUA), em 2000, demonstrou que o uso diário do álcool na adolescência produz danos físicos gravíssimos e o cérebro é um dos principais afetados, gerando perda de memória e prejudicando a aprendizagem diária. Como se não bastasse, ainda é um grande aliado no desenvolvimento de problemas familiares, com violência e age como um incentivador de uma vida sexual impensada. Os resultados são claros: um comportamento de alto risco na era da Aids e de tantas outras doenças sexualmente transmissíveis.
 
Mas além dos prejuízos físicos, vale a pena ficar atento também aos resultados comportamentais do consumo excessivo de álcool. A psicóloga e especialista no assunto, Maria Clara Paes, explica essas conseqüências. “A primeira evidencia no jovem é a agressividade. Ao ingerir o álcool, qualquer pessoa se torna mais valente e, com os jovens, a situação não é diferente. O efeito do álcool somado às características da idade se torna um agravante e tanto”, afirma. Entre as inúmeras perdas psicológicas, podemos destacar a depressão, frustração, amnésia, mudança de humor, sintomas de falta da droga, negação, depressão crônica, ansiedade, fobias, atenção e percepção, falta ou excesso de sono e baixa auto-estima.
 


Beber socialmente não é errado. Mas porque os adolescentes, hoje, não se contentam mais com o social? Moda, influência dos amigos, fuga dos problemas e até mesmo influência da família. Muitos são os motivos que podem levar um jovem a desenvolver o gosto intenso e o costume diário de beber. Para Maria Clara Paes, os jovens procuram por bebidas alcoólicas devido à pressão do grupo de amigos, problemas com os pais e mudanças provenientes da própria fase da adolescência. 
 
Um fator que vale a pena ser levado em consideração é, muitas vezes, os jovens começam a beber com a autorização e supervisão dos próprios pais ou responsáveis. A adolescente, C.A.O., lembra. “Quando eu era pequena, meu pai molhava minha chupeta na cerveja e me dava. Quando fiquei mais velha, bebia com os meus pais nas festas de família. Nunca fui proibida disso”. 

Por outro lado, há quem desenvolva o vício pelo simples fato de encontrar dentro da própria família pessoas alcoólatras, que acabam servindo de exemplo. De acordo com estudos médicos, o alcoolismo é uma doença biopsicossocial, ou seja, possui fatores genéticos, psicológicos e sociais. Por isso, as chances do filho desenvolver o alcoolismo tendo um pai alcoólatra são maiores do que o filho que tem um pai que possui aversão ao álcool. 

 Analisando o público adolescente. Há quem diga que os meninos consomem mais bebida alcoólica do que as meninas. Mas a verdade, hoje em dia, não é bem essa. “Ambos os sexos estão bebendo sem moderação. Já passou a época em que a mulher era repreendida por estar consumindo álcool em quantidade semelhante ao homem”, ressalta Maria Clara.

 O que pode acontecer, especificamente, é: algumas bebidas são mais apreciadas por um público, outras por outro. Os homens consomem cinco vezes mais cerveja e bebidas destiladas do que as mulheres, segundo Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Outro fato vale ser relevado: as mulheres são sim mais sensíveis ao álcool. Isso é explicado, pois, por serem na maioria das vezes menores de estatura, a quantidade de sangue também é inferior, ou seja, a concentração de álcool é maior do que a de um homem.
 
As bebidas alcoólicas são liberadas para maiores de 18 anos e, se ingeridas de forma saudável, podem proporcionar momentos de alegria e felicidade. Por outro lado, o consumo indevido pode trazer sérios riscos pessoais, familiares, sociais e futuros.
 Já dizia o velho ditado: prevenir é melhor do que remediar, por isso, um papo aberto com a nova geração sempre será o melhor caminho para formar futuros adultos conscientes. Vale refletir: 90% de todos os atos de selvageria e agressão (verbal, física, sexual) e 50% dos acidentes de trânsito, no Brasil, acontecem porque pelo menos uma das pessoas envolvidas está em um nível alcoólico fora do permitido. Isso vale para todas as idades.

 O que você tem feito para mudar esse cenário?