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Nicolinha

 

Aos dez anos de idade Nicolinha já era um menino forte e passava as manhãs trabalhando com seus pais nas feiras-livres da cidade; e, à tarde, frequentava o grupo escolar. Eram os anos 1960, e a tensão política pairava no ar. As notícias indicavam uma possível ruptura institucional. O povo havia ido às ruas pedindo o restabelecimento da ordem. Para Nicolinha, no entanto, tudo o que acontecia soava como algo muito distante, o que lhe importava mesmo era poder ajudar aos seus pais fazendo o seu melhor no atendimento dos fregueses e estudar. Apesar da pouca idade, já assimilara os valores respeitáveis com que seu pai lhe orientava: honestidade, dignidade e lealdade. Nada era mais importante que ser reconhecido por sua honestidade, dizia sempre o seu pai.

Uma das feiras que a família trabalhava ficava nas proximidades da Avenida Amador Bueno da Veiga, no Bairro da Penha. A barraca da família era muito conhecida no bairro, tinha os melhores tomates, os melhores legumes e, a balança mais precisa que se tinha numa feira-livre. Ninguém duvidava do peso que ela apresentava.

Certa feita, Tereza, uma velha espanhola, chegou até a barraca de Nicolinha e lhe pediu que conferisse o peso do filé de pescada que havia comprado na barrada de peixe do português Amaro. Nicolinha sem pestanejar colocou o pacote na sua balança e o que era para ser um quilo, na verdade, se mostrou em setecentos e cinquenta gramas. Tereza ficou fula de raiva e, indignada, voltou para a barraca de Amaro para tirar satisfações.

Como boa espanhola fez o devido escândalo na barraca do peixe e, o velho português, mesmo sem razão, ainda tentou justificar a diferença do peso, afirmando com seu sotaque carregado que havia entendido que Tereza pedira setecentos e cinquenta gramas e não um quilo de filé de pescada. Tereza retrucou dizendo que foi muito clara ao pedir um quilo e que não adiantava a Amaro se fazer de desentendido. O feirante sem ter o que fazer acrescentou mais quatro pedaços de filé ao pacote, o que era mais do que a diferença de peso apresentada. 

 


Superada a crise, Tereza, ainda indignada e com o peso do produto corrigido ao seu favor virou as costas e deixou Amaro falando sozinho. Ele correu até ela e perguntou quem lhe houvera afirmado da existência da diferença no peso; e, ela respondeu que fora o Nicolinha, e se foi. O velho português ficou mordido da vida. Sabia que a barraca do pai do Nicolinha era a mais correta da feira, nunca ouvira falar que em algum momento pesou alguma coisa para levar vantagem sobre o freguês. Sem pestanejar, avisou seus funcionários que iria ter uma palavrinha com o Nicolinha e saiu pisando firme de sua barraca.

Nicolinha e seus pais estavam vendendo seus legumes e tomates quando surgiu à sua frente, vermelho de raiva, o português Amaro. Na hora o menino entendeu o que aconteceu e o que estava por acontecer. O pai de Nicolinha que o tinha visto conferir o peso do peixe de dona Tereza ficou a observar. Menino, você não deveria se intrometer nos negócios dos outros; e, além do mais não deveria ter falado da diferença de peso no peixe da velha Tereza, disse o velho português. Nicolinha, do alto de toda a sua experiência de dez anos de idade, olhou nos olhos do português e disse: seu Amaro, não fui eu que me intrometi em seus negócios, dona Tereza veio até aqui e pediu que eu pesasse o peixe; coloquei o pacote no prato e ela viu o quanto marcou, não precisei dizer nada. Na verdade, quem deveria cuidar melhor dos negócios é o senhor porque se continuar assim perderá a freguesia para o Shigueo.

O velho português ficou ainda mais vermelho de raiva e olhou para o pai do menino dizendo, o senhor não vai dizer nada sobre a petulância desse gajo? Rindo e todo orgulhoso do filho, o pai de Nicolinha olhou bem para o português e disse, Amaro, você veio tirar satisfações com uma criança e vem falar para mim de petulância?! Acho que você deveria seguir o conselho dele e cuidar melhor dos seus negócios por que a japonesada está chegando forte nas feiras com os peixes; e, agora acho que o assunto terminou, temos muito o que fazer ainda na feira. Virou as costas para Amaro e foi atender a uma cliente que havia pego uma bacia de chuchus.

O velho português vendo que não tinha chances de vencer a discussão voltou para sua barraca de peixes. Chegando nela, olhou para a barraca do Shigueo e, realmente, ficou preocupado com a concorrência.

Na barraca de Nicolinha o trabalho seguiu tranquilo até o final da feira. Seu pai conferiu a féria do dia, pagou os dois funcionários que os ajudavam na barraca, desmontaram tudo, colocaram as lonas, as hastes, as travas e as caixas vazias e com produtos na carroceria do caminhão e seguiram para casa. 

Na cabine o pai dirigia, a mãe sentou-se à janela e Nicolinha entre os dois. Seu pai não falava muito, mas, naquele dia, ele dirigiu um bom espaço abraçando seu filho com o braço direito enquanto conduzia o caminhão apenas com a mão esquerda ao volante. O pai estava muito orgulhoso de seu filho, um menino de dez anos de idade muito mais homem que muitos adultos; e, Nicolinha estava muito feliz por ter mostrado ao pai que estava aprendendo os verdadeiros valores da vida. 

O velho Amaro continuou vendendo seus produtos com diferença no peso, mas não tanto para não ficar muito evidente aos fregueses. A barraca do Shigueo ampliou-se e, ele acabou abrindo algumas peixarias na cidade. Nicolinha cresceu, se casou e teve filhos. Nunca esqueceu os valores ensinados por seus pais e, enquanto pudesse os continuaria a transmitir aos seus filhos. 

 

Por Roberto de Jesus Moretti • Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo, Doutor em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública. rdjmoretti@gmail.com


 

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